Setembro Amarelo: quando conversar pode ser uma forma de cuidar

Setembro nos convida a falar sobre um assunto que, por muito tempo, foi cercado pelo silêncio, pelo medo e pelo preconceito: a prevenção do suicídio.

No dia 10 de setembro, é celebrado o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, uma data que amplia a conscientização sobre a importância de falar sobre saúde mental, reconhecer sinais de sofrimento e fortalecer redes de apoio. No Brasil, o Setembro Amarelo mobiliza diferentes setores da sociedade em torno dessa causa.

Mas talvez a pergunta mais importante não seja apenas “como prevenir?”, e sim:

Como estamos cuidando das pessoas ao nosso redor?

Nem sempre quem sofre consegue pedir ajuda

O sofrimento emocional nem sempre aparece de forma evidente.

Às vezes ele se manifesta como isolamento, mudanças importantes de comportamento, desesperança, perda de interesse pelas atividades habituais, alterações no sono, irritabilidade ou falas relacionadas à morte e à falta de sentido.

O Ministério da Saúde alerta que esses sinais não devem ser analisados isoladamente e que não existe uma fórmula capaz de identificar com certeza uma pessoa em risco. Porém, quando vários sinais aparecem juntos ou se intensificam, eles merecem atenção.

Por isso, prestar atenção é uma forma de cuidado.

Perguntar também.

E, principalmente, saber escutar.

Precisamos aprender a conversar sobre o que dói

Existe uma crença de que falar sobre suicídio pode “colocar ideias na cabeça” de alguém. Essa não é uma razão para evitar o assunto.

Uma conversa acolhedora pode abrir espaço para que uma pessoa que está sofrendo consiga finalmente dizer aquilo que talvez esteja tentando esconder há muito tempo.

Não precisamos ter respostas prontas.

Não precisamos resolver o problema do outro.

Precisamos estar disponíveis para ouvir.

Em vez de dizer:

“Você precisa ser forte.”

“Isso vai passar.”

“Você tem uma vida tão boa.”

“Pense nas coisas boas que você tem.”

Podemos começar de outra maneira:

“Percebi que você não está bem. Quer conversar?”

“Estou aqui para te ouvir.”

“Você não precisa passar por isso sozinho.”

Escutar não é o mesmo que resolver

Essa talvez seja uma das maiores dificuldades quando alguém que amamos está sofrendo.

Temos pressa de encontrar uma solução.

Queremos dar conselhos, explicar, comparar experiências ou convencer a pessoa de que tudo ficará bem.

Mas, em muitos momentos, o primeiro cuidado não é oferecer uma resposta.

É oferecer presença.

Escutar sem julgamento, levar o sofrimento a sério e incentivar a busca por ajuda profissional são atitudes importantes diante de alguém que apresenta sinais de sofrimento intenso. Em situações de risco imediato, a orientação é não deixar a pessoa sozinha e buscar atendimento de emergência.

Saúde mental também precisa fazer parte da nossa cultura

Falar sobre prevenção ao suicídio não deveria acontecer somente em setembro.

Precisamos construir uma cultura na qual falar sobre sofrimento emocional não seja sinal de fraqueza.

Isso vale para as famílias.

Para as escolas.

Para as empresas.

Para as equipes.

Para os relacionamentos.

E para cada um de nós.

No ambiente de trabalho, por exemplo, cuidar de pessoas não significa apenas oferecer benefícios ou promover campanhas pontuais de saúde mental. Significa também criar espaços nos quais as pessoas possam ser ouvidas, respeitadas e acolhidas.

Uma liderança atenta pode perceber mudanças de comportamento.

Um colega pode perguntar se está tudo bem.

Uma empresa pode orientar sobre onde buscar ajuda.

Um profissional pode fazer o encaminhamento adequado.

Pequenas atitudes podem fortalecer uma rede de proteção.

Prevenção começa muito antes da crise

Prevenir não significa apenas agir quando alguém chega ao limite.

Prevenção também é falar sobre emoções.

É desenvolver recursos para lidar com frustraçõesÉ fortalecer vínculos.

É aprender a pedir ajuda.

É reconhecer os próprios limites.

É buscar acompanhamento psicológico quando necessário.

É construir relações nas quais as pessoas possam dizer “não estou bem” sem medo de serem julgadas.

Por isso, talvez uma das mensagens mais importantes deste Setembro Amarelo seja:

não precisamos esperar alguém chegar ao limite para perguntar como ela está.

E você, como tem cuidado de quem está ao seu redor?

Talvez hoje exista alguém próximo de você precisando ser ouvido.

Talvez seja um familiar.

Um amigo.

Um colega de trabalho.

Ou talvez seja você.

Se existe sofrimento, não é preciso enfrentá-lo sozinho.

No Brasil, é possível buscar apoio nos serviços de saúde, como UBS, CAPS, UPA, pronto-socorro e hospitais. O CVV – Centro de Valorização da Vida, pelo número 188, oferece apoio emocional gratuito e sigiloso, 24 horas por dia.

E buscar ajuda profissional não é sinal de fraqueza.

É uma atitude de cuidado.

Setembro Amarelo nos lembra de algo que deveria acompanhar todos os meses do ano:

escutar é cuidar.
acolher é cuidar.
pedir ajuda é cuidar.
e estar presente também pode ser uma forma de prevenção.

Que possamos transformar o silêncio em conversa, o julgamento em acolhimento e a indiferença em presença.

Porque, muitas vezes, uma conversa começa com uma pergunta simples:

“Você está bem de verdade?”